terça-feira, 24 de maio de 2016

Magda, a ansiosa


leusa.santos@gmail.com


Magda estava decidida. Daquele dia não passava. Completara 40 anos há duas semanas, mas, de tão ansiosa, já estava na crise da meia-idade. Precisava fazer terapia. Já fazia acupuntura, aromaterapia, tomava florais, mas queria “Jung na veia”. Queria conhecer o seu "self", a sua consciência na totalidade, e não ficar apenas com o ego, a ponta do iceberg. Com certeza teria muito trabalho a fazer. E a necessidade estava cada vez maior porque, aos 40, não tinha casado e nem tido filhos. A vida profissional ia morna e a sentimental, cheia de atropelos e de carinhas que não queriam nada mais do que “curtir”. A conta emocional de Magda não estava fechando. Tinha que buscar ajuda. Ou melhor, mais ajuda.

Criou coragem e pegou o telefone:

- Consultório da Dra. Marta, bom dia!

- Bom dia! Gostaria de marcar uma consulta com a doutora Marta. Disse uma Magda ansiosa.

- Pois não... É a primeira vez?

- Com ela ou com terapia?

- [?] Tanto faz, senhora...

- Em tudo. Nunca fiz uma terapia. Estou com 40 anos e preciso urgentemente fazer as sessões. Não sei o que vai ser de mim nos próximos anos, da minha cabeça, dos descendentes que eu não tive, das promessas que não cumpri...

- Senhora? Interrompeu a secretária.

- O que foi?

- Temos vaga amanhã às quatro da tarde.

- Ótimo! Ótimo! Pode marcar! Pode marcar!

No outro dia:

- Doutora, eu nem sei por onde começar...

- O que lhe incomoda atualmente? Perguntou a psicóloga:

- O que pesa mesmo é o passado...

Uma semana depois:

- Doutora, eu vim hoje para lhe dizer que não quero mais continuar. Disse uma Magda aflita.

- Por quê? Perguntou a psicóloga.

- É muita coisa para dar conta! Eu não vou conseguir dialogar com os meus eus!

- Mas isso te incomoda?

- Claro!

- Por quê?

...
Dez anos depois:

- Nem sei como lhe agradecer, doutora Marta!

- Não precisa, fizemos um ótimo trabalho!

- Fizemos?

- Sim!

- E agora? O que eu vou fazer com os meus 50 anos? Não estou preparada para entender que provavelmente terei menos de 50 anos de vida!

- E isso te incomoda?

- Sim!

- Por quê?

...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Ciclos

Nascer chorando. Engatinhar. Andar. Primeiras palavras: papai e mamãe. Leite quente, papinha. Infância. Sem preocupações. Sem responsabilidades. Educação. Escola. Primeiro dia com choro. Mamãe foi embora e o que vai ser de mim? Outras crianças. O estranho assusta. Acostumei com o estranho. Caí da árvore. Quebrei um braço. Quantas coisas legais escreveram no meu braço de gesso! Ganhei quinze dias de holofotes. O gesso sai. Saem os holofotes. Vida normal. Volto à escola. É a minha vida. O começo embrionário da responsabilidade. A vida é doce!

Adolescência. Dúvidas. Depressão. Primeiro amor. Amores platônicos. Que seria da vida se não houvesse sofrimento por amor? Seríamos menos românticos, menos sensíveis? Talvez sim. Senão, as pessoas não sofreriam por amor quando eram adolescentes. É um ponto de vista. A adolescência também é bonita. Cadernos enfeitados. Adesivos da Hello Kitty? Não! De Robert Pattinson, de "O Crepúsculo". Esse sim é o homem ideal! Os meninos gostam de games. Playstation 1, 2, 3...qual versão é a sua? Bem-vindos super-homens da pós-modernidade! A vida é urgente.

Um clic para a vida real! Os pais já não são os mesmos pais da infância e da adolescência. Sempre dizem que temos que nos aperfeiçoar. Arrumar um emprego porque eles, nossos protetores pais, não serão para sempre. Eles ensinaram o que significa uma palavrinha chamada "independência?" A postura diante da vida vai depender do que fazemos com essa independência e de como a desenvolvemos na nossa vida. Muitas vezes não temos tempo para pensar nisso. Faculdade à noite e trabalho durante o dia. A vida é dura!

Somos adultos. A responsabilidade chega 100%. O trabalho. A sobrevivência. A competição. A concorrência. Matar um leão todo dia. Ensinaram isso quando a gente era criança? Deviam ter dito isso na escola. O choque não seria tão grande. Amadurecemos como podemos. Casamos. Descasamos. Casamos de novo. Colecionamos decepções e alegrias. Adoecemos. Perdemos quem amamos. Uma avalanche de acontecimentos. A vida é cruel!

Terceira idade. Velhice. Fim da vida? O fim não é o fim porque sempre é um começo. A frase é de efeito, mas o conteúdo nos leva a pensar. O conteúdo é tudo! E é dele que nos valemos para enfrentar mais essa etapa da vida. Você escolhe: continuar vivendo ou ficar numa cadeira de balanço reclamando da vida. Conquistamos o que queremos ou o que pudemos. Podemos conquistar mais? Essa resposta está em cada um de nós. Nunca é tarde aos 70, 80 anos. Depende do que a gente fez com a palavra "independência", lá atrás, lembra? A vida é linda!

domingo, 25 de janeiro de 2015

Raimundo

Atrás de óculos e de um bigode, qualquer um esconde os mais recônditos segredos. Rosto sisudo, expressão séria, maxilares travados e tensionados. Assim é Raimundo, que não rima com nada, apenas com ele mesmo. Raimundo é aquele estranho que chama atenção só pela aparência: estranha. Certa vez estava ele no açougue, seriamente, pedindo dois quilos de bisteca:

- Dois quilos de bisteca, por obséquio
- Por o quê? – Perguntou o açougueiro.
- Obséquio.

O açougueiro deu um risinho e falou para o cara do despacho:
- Corta bisteca aê!!! Dois quilos!

Raimundo irritou-se com aquilo. Para ele, um tratamento mais ríspido conversa com a má educação. Mas não ia se trocar no açougue. Preferiu engolir o aborrecimento e dar seguimento à rotina. Pegou a carne e foi para o caixa. Lá, outra bofetada:
- Só tá passando se for em dinheiro – Disse a caixa, com cara de poucos amigos.
- Mas eu tenho dinheiro aqui. Ia pagar em dinheiro mesmo, senhorita.

E a moça do caixa disparou outra:
- Só tô avisando para não ter problema e reclamar depois.

Ao sair do açougue, quando ia abrir a porta do carro, um flanelinha adiantou-se:
- Aê, tio!
- Tem dinheiro não! – Gritou Raimundo.


Ninguém é de ferro.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A brevidade da vida

Quando grandes tragédias acontecem, ou mesmo quando perdemos uma pessoa querida no seio da nossa família, assaltam a nossa mente os pensamentos clichês “não somos nada”, “não sabemos de nada”, “a vida é breve”. Fazendo uma reflexão sobre essa brevidade da vida e do que fazemos dela, chego a uma opinião, bem pessoal, que a vida não é breve, nós é que somos breves. Somos breves quando perdemos o tempo precioso que temos aqui nesta vida, não importando se acreditamos ou não numa vida vindoura, em reencarnação, ressurreição, ou o que for.

E geralmente os escorregões morais são os fatores que mais nos roubam o breve tempo que temos, ou melhor, que o tornam inútil. Somos breves quando nos comprazemos da desgraça dos outros, somos breves quando tentamos minar o caminho de quem pensamos ser o adversário, somos breves quando procuramos matar no outro a vontade de andar de cabeça erguida.

Mas também há os pequenos escorregões, nem tão graves assim, que dão brevidade ao nosso tempo. Somos breves quando não telefonamos para aquele familiar geograficamente distante e perguntamos: “Como vai?”. Somos breves quando nos reunimos no seio da família quando algum parente morre. E sempre comentamos: “Não somos nada”. Realmente não somos nada e somos tudo. Nada porque estamos submetidos a toda uma lógica humana que nos torna frágeis. E somos tudo porque o que nos move todos os dias, o que torna nossas ações grandes é maior do que a carne. É o nosso sopro de vida. O sopro que nos torna eternos mesmo quando não estamos mais presentes.


Todos temos uma assinatura pessoal construída pelo nosso comportamento. Tem gente alegre por natureza, a despeito das coisas andarem mal. Tem gente que só enxerga o lado negativo, mesmo quando as coisas estão indo relativamente bem. Tem gente que só foca a própria vaidade. E há aqueles que chegam até a se anular em prol do outro. Mas o que é ser bom? A melhor receita é simples, justa e difícil: façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. Isso já seria um bom começo e tornaria a vida menos breve. Como disse Sêneca, pensador do Império Romano: “Não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim”.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Tempo afiado

Há tempo para tudo já a partir do momento em que nascemos.  Só que entre o nascer e o morrer existe o viver. É aí que o bicho pega. O que fazer com esse enorme intervalo de tempo que temos e que cada vez mais fica maior, levando-se em conta o aumento da expectativa de vida da população? Sem adentrar nos áridos números do IBGE, o fato é: o que fazemos com o nosso tempo é nossa assinatura pessoal. 

Em relação ao tempo, podemos dizer que vivemos de ilusões. E a primeira delas é acreditarmos que temos todo o tempo do mundo. E não temos sequer os minutos seguintes. Nós só temos o tempo presente, aquele em que respiramos, aquele em que dizemos “eu te amo”, aquele em que dizemos “Nunca mais” para algo que nos tira do prumo. E seguimos vivendo convictos de certezas, que mudam através dos anos.

Outra grande ilusão é a juventude. Quantos, inconscientemente , se comportam como se os 20 anos fossem para sempre, mesmo sem saber que não são?  E à medida que os anos vão passando, parece que vamos acordando para as décadas que vamos vencer: 30, 40, 50 anos... A essa altura a ficha já caiu, espero. Passamos a experienciar o doce sabor da maturidade. Que só vai nos aprimorando, nos preparando para o futuro. Que com certeza vai ter a nossa assinatura. O nosso futuro depende em grande parte de nós mesmos. Das nossas crenças, das nossas ilusões, dos nossos benditos equívocos e consequentes acertos.

O tempo pode ser nosso aliado ou nosso inimigo. Depende do que fazemos dele. Como foi o seu dia hoje? Você terminou o dia menor ou maior do que começou? A resposta faz toda a diferença. Para nos sentirmos bem com ela é preciso trabalho. Resignação e ousadia, temperança e humildade, justiça e compreensão. Tudo na medida certa. E vamos dosando. Vamos errando, acertando, voltando a errar e, enfim, driblamos as armadilhas do tempo. Tornando-o nosso parceiro. Quanto mais temos tempo, mais crescemos. E o bom da festa é que a música toca conforme a nossa dança.

O pensador Ovídio (43 a.C. - 17 d.C.) dizia “tempus edax rerum”, que significa “o tempo devorador das coisas”. Ou seja, o tempo parece ter dentes afiados. Que vai devorando tudo que é passado por ele. É um grande buraco que vai nos engolindo e vamos reagindo, vivendo e ele continua a nos engolir e nos preparar para o futuro, que está condenado a ser devorado por ele também. Então, não vivamos de ilusões. Aproveitemos o tempo. “Carpe diem”, dizia Horácio (65 a.C. – 8 d.C.), convidando-nos a “colher o dia de hoje”. Não abandonemos nossas convicções, mas sejamos humildes o suficiente para mudá-las quando for preciso. Se o tempo tem dentes afiados. Fujamos das mordidas, então.

REFLETINDO

“Na véspera de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas”, Fernando Pessoa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Regando a horta

A palavra felicidade vem do latim “felix”, que significa “frutuoso”, “fértil”, “fecundo”. Sempre dizem que não existe felicidade completa e sim momentos em que ela se faz presente. Será mesmo? Quando falamos em felicidade, pensamos em coisas boas.  Mas são boas apenas na nossa concepção e na de muita gente. Ganhar uma promoção, passar no vestibular, casar, ter filhos. Claro que tudo isso é positivo para uma grande parte das pessoas. Mas estou falando de outras coisas que poderiam ser boas se encaradas com outros olhos.  Separei duas para nossa reflexão: divórcio e perda de um ente querido pela morte.

À essa altura vocês, caros leitores, devem estar achando que eu enlouqueci. Mas explico para você desfranzir o cenho. Nós somos levados a achar bom tudo o que não nos incomoda, tudo o que nos dá conforto e não exige muitos sentimentos para administrar possíveis mudanças que nos chegam. Isso é normal. Afinal, somos humanos e estamos aqui aprendendo, aprendendo sempre. Aprendem até aqueles que acham saberem de tudo.

Pois bem. A separação de uma pessoa amada e a perda de alguém que faz a passagem para o outro lado da vida podem ter significados diferentes. Podemos significá-las na nossa mente de forma que aprendamos com elas. Pensem bem: se veio uma mudança desse tipo, então que possamos passar por ela e sairmos maiores, mais maduros, mais seguros.

Para muitos, a morte de uma pessoa querida chega como uma tragédia. Mas nos ensina muito. 
Começando por uma lição básica: um dia nós vamos deixar esse mundo. Se por doença, por acidente ou outra causa, não sabemos ainda. Mas vamos ter de fazer “a viagem”. Então, nos preparemos desde já para ela. Não significa que devemos viver pensando na morte. Mas, sim,  pensando em viver bem, em fugir de intrigas, em ajudar o outro, em perdoar nossos desafetos. Só essas tarefas nos exigem uma boa dose de sentimentos que precisamos exercitar: paciência, desapego, bom humor, resignação e por aí vai. E para os mais temerosos, um conselho: vale muito a pena viver bem porque tudo que aprendemos levamos quando formos embora desse mundo para outras missões.

O fim de um casamento, de um relacionamento amoroso, nos dá um baque danado. Mas igualmente traz uma série de ensinamentos. Ter independência emocional, a oportunidade de governar nossa vida, a gostar de nós mesmos. Acreditem: muita gente acha que ama quando diz: “Amo você mais do que a mim mesmo”. Perigo! Sinal vermelho quando a pessoa mais importante não é você! E isso não é uma ode ao egoísmo. É, sim, um convite ao amor-próprio.


Não viva apenas. Viva feliz sempre. Porque somos, em essência, férteis para a felicidade. Basta regar a horta.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A brevidade da vida

Quando grandes tragédias acontecem, ou mesmo quando perdemos uma pessoa querida no seio da nossa família, assaltam a nossa mente os pensamentos clichês “não somos nada”, “não sabemos de nada”, “a vida é breve”. Fazendo uma reflexão sobre essa brevidade da vida e do que fazemos dela, chego a uma opinião, bem pessoal, que a vida não é breve, nós é que somos breves. Somos breves quando perdemos o tempo precioso que temos aqui nesta vida, não importando se acreditamos ou não numa vida vindoura, em reencarnação, ressurreição, ou o que for.

E geralmente os escorregões morais são os fatores que mais nos roubam o breve tempo que temos, ou melhor, que o tornam inútil. Somos breves quando nos comprazemos da desgraça dos outros, somos breves quando tentamos minar o caminho de quem pensamos ser o adversário, somos breves quando procuramos matar no outro a vontade de andar de cabeça erguida. 

Mas também há os pequenos escorregões, nem tão graves assim, que dão brevidade ao nosso tempo. Somos breves quando não telefonamos para aquele familiar geograficamente distante e perguntamos: “Como vai?”. Somos breves quando nos reunimos no seio da família quando algum parente morre. E sempre comentamos: “Não somos nada”. Realmente não somos nada e somos tudo. Nada porque estamos submetidos a toda uma lógica humana que nos torna frágeis. E somos tudo porque o que nos move todos os dias, o que torna nossas ações grandes é maior do que a carne. É o nosso sopro de vida. O sopro que nos torna eternos mesmo quando não estamos mais presentes.


Todos temos uma assinatura pessoal construída pelo nosso comportamento. Tem gente alegre por natureza, a despeito das coisas andarem mal. Tem gente que só enxerga o lado negativo, mesmo quando as coisas estão indo relativamente bem. Tem gente que só foca a própria vaidade. E há aqueles que chegam até a se anular em prol do outro. Mas o que é ser bom? A melhor receita é simples, justa e difícil: façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. Isso já seria um bom começo e tornaria a vida menos breve. Como disse Sêneca, pensador do Império Romano: “Não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim”.