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O Carnaval de José

José não se conformava Com a atitude da namorada Sumiu durante o Carnaval Sem pra ele dizer nada Passou os quatro dias Numa folia só Perdeu várias vezes o juízo Só dançando Michel Teló Os amigos perguntavam Onde andava a sua amada José, então, inventou Uma mentira deslavada Disse a todos que a dita Foi visitar uma tia Que mora no interior E está doente, em agonia E assim José passou O Sábado de Zé Pereira O domingo, a segunda E finalmente a terça-feira E nada de ela aparecer O jeito era esperar pra ver Sua última esperança Era o Bacalhau do Batata Será que ela chegava Nessa quarta-feira ingrata? Deu meia-noite e nem sinal Da namorada cozida ou assada José se rendeu ao desprezo Onde estará essa desgraçada? Eis que só na quinta-feira Quando todo mundo já voltava Às suas atividades normais Eis que ela retornou de onde Não queria sair mais José a recebeu em casa Com cara de poucos amigos E fez só uma pergunta: O que aconteceu contig...

Charada

Existe um tipo de ser Que todo dia é apedrejado Mais castigado do que a Geni E até a Madalena, cheia de pecado Lá no céu morreu de novo Mas foi de pena do coitado Esse pobre ser terrestre Vive na mais pura ilusão De que tudo ele pode Ninguém vai lhe dizer não E quando sofre um revés Mostra o poder que tem na mão E não adianta botar espelho Na frente desse ser superior Que ele só enxerga o que quer É um bruxo, mas se vê um esplendor Mas basta você ameaçar A questionar a sua glória E mostrar a face oculta Que faz parte da sua história O ser dana-se a falar A se elogiar e regozijar Do bem que está fazendo E injustos são aqueles Que estão a lhe criticar Mas não é todo ele Que vive nessa vergonhice  Tem aquele que faz tudo certo Não comete nenhuma sandice É nesse que se deve fiar Se a sorte você tiver de achar Um duende, ou o Papai Noel Que muitos sonham encontrar Ou quem sabe a Branca de Neve Possa lhe dar uma dica E indicar um nome forte Que não se envolva em mutr...

O plano

Por falta de dinheiro, acabaram-se as filas nos bancos. E o careca, que estava na fila, tinha vindo antes de um barbeiro. Teve que abrir mão da cortesia do corte por falta de cabelos. E o barbeiro, indignado com a falta d´água, jogou os sabonetes fora. Afinal de contas, quem precisa de banho? A mulher do barbeiro não se conformava. Além de aguentar o fedor do marido, tinha ainda que ficar sem televisão. Por falta de pagamento, a companhia havia cortado a energia elétrica do casal. E a companhia de energia... - Parou! Parou! Parou! Não aguento mais essas sandices! - Mas eu nem comecei a escrever a coluna e já enchesse o saco, Manoel? - É que isso não vai dar certo, Leusa! Eu não vou convencer a minha mulher dizendo essas coisas sem nexo. - Você não deixa eu terminar. Tudo bem que você não decore tudo, mas pegue o espírito da coisa... - Espírito quem vai virar sou eu se não arranjar uma boa desculpa para Tereza. - Calma! Mas também você exagerou, vamos combinar? Passar a noit...

Ocorrência policial

Uma cena destoante naquela delegacia fétida e cheia de infiltrações nas paredes. Vera Lúcia estava lá, com aqueles sapatos scarpin, um conjunto de saia e blazer vermelho, maquiada, escovada, lavada e enxaguada de tão chique. O escrivão a recebeu como se fosse a primeira-dama. Pareciam velhos conhecidos: - Sente-se, dona Vera, eu mesmo vou tomar o seu depoimento. - Muita gentileza sua, senhor Adamastor. E Adamastor, com toda a sua exímia experiência de tomador de depoimentos, resultado de trinta anos de profissão fazendo só aquilo, pôs-se a digitar o que era relatado pela ilustre depoente: "Faz-se saber, por meio desta ocorrência, que aos 25 (vinte e cinco dias) do mês de fevereiro do corrente ano de 2012 (dois mil e doze) compareceu a esta delegacia a senhora Vera Lúcia Holanda Miranda Martins, brasileira, casada, residente e domiciliada na Rua Perfídia, número 34, bairro dos Algarves, Serra Gaúcha. A referida senhora, caracterizada neste documento como depoente, saía do sa...

Pergunte ao Google

Toda dúvida que João tinha Sentava em frente ao computador E danava-se a digitar Era um exímio perguntador Naquela noite em especial Depois de muito procurar Achou uma definição para o amor Tema desse conto Que agora eu vou contar Lá vai João indagar Se o computador sabia O amor significar Em um site achou uma resposta Não muito satisfatória Dizia que o amor Era uma coisa simplória Um negócio besta Que só faz o povo perder Tempo e noites de sono A pensar e a sofrer E enquanto isso o mundo Gira, gira, sem parar E o sofredor, coitado Nem vê a vida passar João voltou para a busca Procurou outro endereço E achou uma resposta E por ela teve um apreço Dizia que o amor é Uma coisa que a gente sente Que doi, doi, até ficar dormente E o coração, maltratado, Desatinado e esfarrapado Deixa o cabra atormentado Até ele ficar demente Essa resposta estava Chegando onde João queria Mas ele continuou a buscar Aquela que ia satisfazer A sua curiosa a...

Feche a porta!

Estive pensando com meus botões (que clichê horrível! Mas estive mesmo ensimesmado com eles). Como estava dizendo, estava eu pensando, refletindo, acho que é a crise dos setenta anos. Muitos que estão lendo esse texto agora ainda não chegaram aos 70 anos. Outros, sim. E devem estar contando que eu escreva sobre como chegar aos 70 bem de saúde, ou bem de vida, ou bem de qualquer coisa. Pois eu digo uma coisa a todos, maiores e menores de 70: não é nada disso! Eu cheguei aos 70 anos e estou frustrado. Estou frustrado porque sou um fracassado! Você está lendo um texto de um fracassado na vida! Sou rico, não tenho dívidas que não possa pagar. Aliás, para mim dívida é para quem não pode pagar. Para quem pode é outra coisa que ainda não descobri e acho que vou morrer não sabendo. Além da questão financeira, há outro problema que convivi a minha vida inteira e hoje acho que vou morrer sem saber o que é: resfriado. Dá para acreditar que uma pessoa, no mundo de hoje, cheio de vírus por aí de t...

O tempo

Muito se fala de dinheiro Paixão, intriga e traição Mas se esquecem do tempo Que é o maior vilão Vou explicar o porquê Preste atenção para entender O tempo é o elemento Mais democrático que há É igual para todo mundo Dele ninguém pode se safar Para uns passa rápido Anos se igualam a segundos Para outros, se arrasta Parece que parou o mundo Mas uma coisa é certa Tempo bom tem. E ruim, também Tem gente que nem parece Que está envelhecendo Quanto mais o tempo passa A pele está rejuvenescendo Mas em compensação há outros Que correm na frente do relógio Cada dia que eles vivem Parece que viveram um ano E a pessoa vai se transformando Num verdadeiro farrapo humano Mas as pessoas nem ligam Para o tempo que têm a viver Vivem felizes da vida Como se não fossem morrer Arrumam tempo pra tudo Só se esquecem de viver Um dia tem 24 horas E nem tudo dá para concluir Umas oito horas, em média Passamos só a dormir Tem o trabalho, o estudo E sobra tempo ...