Pular para o conteúdo principal

O LABIRINTO

Ao olhar para mim você vê o quê? Alguns veem um desafio a vencer. Outros veem um grande obstáculo e desistem de tentar. O difícil cansa. O difícil instiga. Depende do que sopra a alma. Diz a mitologia grega que Dédalo me construiu para aprisionar o minotauro. Uma figura estranha metade homem e metade touro. Jovens eram ofertados regularmente para a criatura, que os devorava. Até que Teseu acabou com essa farra antropofágica e, com uma ajudazinha de Ariadne, conseguiu derrotar o minotauro e sair de mim, vivo. Vejam que perspicácia, não é? Tantos anos e tantos jovens foram mortos pela horrível criatura miscigenada de humano e animal e bastou uma ideia básica: um novelo. Um simples novelo que Teseu foi desenrolando para marcar o caminho de volta. Bingo!

Bingo nada! Não acredito nessa história. E olhe que eu tenho moral para afirmar isso. Não tem nada de Dédalo, de Ariadne, de Teseu e muito menos do minotauro. O minotauro é você! Seu vizinho, seu chefe, sua namorada, seu amigo, enfim, qualquer um pode entrar num labirinto e se deparar consigo. Não há razão nesse negócio de labirinto e, sim, intuição. Não adianta Ariadne e nem o seu novelo para ajudar a sair de mim. Tem que ter coragem para entrar, sangue frio para encarar o que está lá dentro esperando por você e determinação para encontrar o caminho de volta. O que você vai encontrar não sei, depende de quem entra. Pra você, pode haver algo lá como uma Medusa, por exemplo. Para outra pessoa pode haver outra coisa completamente diferente, um bolo, um suco de laranja, uma almofada.

Narciso, aquele que se admirava, entrou em mim e encontrou a si. Só enxergou reflexos seus. Muita gente fez como ele. Só enxergou a si mesmo. Aquele presidente mesmo, que bradava aos quatro ventos que suas ações faziam história no país que chefiava, também só enxergou a si. Nunca minhas paredes refletiram tanta barba, meu Deus! Teve uma freira que entrou lá e encontrou um monte de crianças rindo e brincando com ela. Saiu chorando copiosamente e lamentando o fato de não ter sido mãe. Sentia o ventre vazio e o coração cheio de amor pra dar.

Certo dia entrou um senhor, muito distinto, daqueles com carro grande, tipo "tiozão". Parou o veículo na minha frente e entrou. Lá nas minhas profundezas avistou uma mulher. Uma mulher linda, vinte anos mais nova do que ele. Ela lhe sorria um dos sorrisos mais encantadores que já viu. Tentou tocá-la, mas não conseguiu. Ela fez um sinal para que saísse e a encontrasse lá fora. Pelo menos foi isso que ele entendeu, ou quis entender. E foi o que ele fez. Desde aquele dia, o distinto "tiozão" passou a ser visto frequentemente na praia de Boa Viagem, azarando as meninas. Paciência! Nem sempre eu acerto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No ritmo do mar

Os pensamentos guardam em si a mesma intermitência das ondas do mar. Ora voltam à calmaria, ora revoltam-se contra as pedras, ora nos quebram só para começarmos tudo de novo... E ainda bem que o mar é assim.

O riso

O riso é, sim, uma manifestação de alguém que está feliz. Mas é também desespero de alguém em aflição. Porque o riso tem essa característica de ser, em si, oposição. O riso é ainda um recurso de quem é pego de surpresa e, sem saber o que dizer, ri. Ri o riso dos fujões ou dos traídos pela falta de reação ao assalto de um argumento. O riso é, sim, autoritário. Impõe com uma cara engraçada uma inocente piada, que de nada disso tem. Tem pavor, rancor, preconceito. Mas o riso tudo abafa. E aparece, ali, sorrateiro e inconveniente.  Senhor de sua presença. O riso é, sim, falta de assunto. Provocação e até irritação. Testa os nervos de quem vê em tudo um opositor. Testa também os nervos daquele professor. Que suporta, ou não, os risinhos quando tira os olhos do grupo. O riso, em suas variantes e sob todas as suas relatividades, é imprevisível. É um enigma. Porque nem todo riso é sincero. E quando falta a verdade, sobra aut...

Quarentena da varanda

Virgínia tinha 47 anos e observava a paisagem da varanda de seu apartamento. Fazia isso já há quase 40 dias. Estava em quarentena. Ela e um terço da população do planeta. Um vírus novo, altamente contagioso e letal colocou todos em casa. Ou pelo menos os que quiseram e puderam ficar. Ela tinha 47 e olhava a paisagem da varanda... Uma vida parada ou pulsante ? Engraçado ela comungar dos dois pontos de vista. A cidade estava aparentemente parada. Ouvia e via um carro aqui, outro ali cortar a avenida. Mas as pessoas estavam pulsantes. Cada uma com seus anjos e demônios internos e externos para lidar. Quarentena sozinho, quarentena com a família... Um desafio diário. Imagem: Joseph Redfield Nino / Pixabay Virgínia refletia sobre aquele desafio na vida dela. Não o tempo todo. Procurava dividir a rotina para ter uma rotina. Uma que fizesse sentido. Um novo pra o novo tempo. E um novo para um tempo mais novo ainda que estava por vir. Mas, entre os pensamentos, foi caçar algo na N...