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MARIDO NÃO CONTA

Luíza e Romeu não se cansam de visitar o Pelourinho, em Salvador. Adoram o clima diversificado e afro do lugar. Naquela tarde, estavam apreciando, pela enésima vez, a Casa de Jorge Amado, um dos pontos turísticos mais visitados da região. Sempre passavam férias na Bahia. Luíza, encantada como sempre, andava de um lado para o outro da casa. Já tinha lido várias obras do escritor e o fato de estar ali era como se tivesse mais perto dele e de toda a aura literária envolvente em suas obras. Pairavam no ambiente a altivez de Tieta, a brejeirice sedutora de Gabriela Cravo e Canela, a liberdade de Dona Flor e Seus Dois Maridos, enfim, parecia que os personagens estavam também ali, a receber Luíza.

Enquanto ela tirava fotos e se embebia do clima do lugar, Romeu se entretinha com um painel sobre os orixás. Era novidade na casa. Canceriano, descobriu que Iemanjá e Nanã são os regentes do seu signo. São orixás protetores, dominadores e que prezam muito pelos filhos. Também guardam mágoas, principalmente Nanã. Espiou também o orixá de Luíza, Iansã. O orixá dos ventos. Impulsivo, aventureiro e temperamental. Leonina, Luíza realmente tem um gênio forte, mas também sabe ser doce, avaliava Romeu.

- Amor! Vem ver isso aqui! - Luíza o tirou dos seus pensamentos. Havia um grupo de percussionistas ensaiando na frente da Casa de Jorge Amado. Um afoxé de arrepiar.

- Nossa! Que clima! - admirou-se Romeu.

Rapidamente juntou um monte de gente. Todos entrando no ritmo caliente e inebriante produzido pelos sons dos tambores. Sem se dar conta, Luíza e Romeu começaram a dançar junto com as pessoas que se aglomeravam. Estava no sangue deles o suingue da dança. Até os gringos eram contagiados pelo ritmo, mesmo desajeitados. Até que, de repente, no meio daquela pequena multidão, Luíza avistou um rosto familiar. Não dava para ver direito porque o homem estava do outro lado da roda que havia se formado, dançando com uma mulher, e muitas pessoas estavam na frente dele. Mas, tinha certeza, conhecia-o. Fixou o olhar. Quando o movimento de pessoas abriu uma brecha, sua visão limpou e seu coração acelerou. 'Jorge? Aqui! Mas como?', gritava Luíza silenciosamente. Estava deveras estatelada com a presença daquele homem. 'Esse salafrário não disse que ia para uma exposição em Portugal?', vociferava dentro de si.

- Querido, vou ali comprar um acarajé!

- Vou com você! - disse Romeu.

- Não, fica aqui pra guardar o lugar da gente - disse isso e já saindo ao encontro do homem.

- Portugal não é aqui, sabia não? - disse ela, fuzilando-o com o olhar.

- Você não está com o seu marido?

- Mas marido não conta!

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