Pular para o conteúdo principal

Meu fiel inimigo



Não há fidelidade maior do que a que um inimigo lhe devota. Ela e pura, inteira. Faz de você o centro das atenções. A fidelidade de um inimigo é a coisa mais certa da vida, depois da morte, claro, porque desta ninguém escapa. Mas enquanto não morremos, não partimos desta para uma incerta, temos como 100% de garantia o sentimento de fidelidade de nosso inimigo. É um sentimento nobre, veja só: é um tipo de fidelidade fácil de conquistar, fácil de manter e difícil de perder. Jamais um inimigo lhe decepcionará. Sempre lhe renderá intrigas, maledicências, críticas destrutivas.

Já a fidelidade de um amigo não é lá muito confiável. Quantos segredos são partilhados por inúmeras pessoas, quando só uma era para ficar sabendo? Já diz o ditado que quem quer manter segredo, só conte a si mesmo. Compartilhou, dançou. E nem precisa de Facebook para isso. A fidelidade do amigo perde para a curiosidade. Contar algo a alguém curioso é um perigo. Ele pode por tudo a perder "sem querer". Além disso, há também os altos e baixos da amizade. Geralmente as pessoas cobram muito dos amigos. Cobram atenção, conselhos e, o impossível: querem que eles concordem com tudo o que pensam. Impossível alguém se manter fiel por tanto tempo com essa lista de exigências. E ainda tem o ciúme da amizade. "Como um amigo pode ser mais amigo de outra pessoa do que de mim?", questionam muitos.

A fidelidade no amor é a mais complicada que existe. No amor, o nível é outro. Aliás, tem três níveis: cama, mesa e banho. Como não cobrar fidelidade de alguém com quem se divide a cama, o quarto, a sala, o banheiro, os sonhos? Dificuldade similar a de passar em um concurso público. E não estamos falando de fidelidade conjugal porque esta é um pressuposto da fidelidade sentimental. O parceiro é fiel ao que você sente? Ao que você acredita? Ao que você odeia e ama nesta vida? Às vezes queremos que o outro se molde ao nosso jeito de ser, seja fiel à nossa rotina de vida. Esquecemos de um detalhe: as pessoas são diferentes. E outro detalhe mais importante ainda: nunca serão iguais.

A fidelidade é um sentimento que se adapta ao modo de ser de quem o abriga. Amigos, inimigos e amores têm o seus ideais de fidelidade, que nem sempre se alinham com os de seus pares. E tudo, no fim, acaba dando certo de algum jeito.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No ritmo do mar

Os pensamentos guardam em si a mesma intermitência das ondas do mar. Ora voltam à calmaria, ora revoltam-se contra as pedras, ora nos quebram só para começarmos tudo de novo... E ainda bem que o mar é assim.

O riso

O riso é, sim, uma manifestação de alguém que está feliz. Mas é também desespero de alguém em aflição. Porque o riso tem essa característica de ser, em si, oposição. O riso é ainda um recurso de quem é pego de surpresa e, sem saber o que dizer, ri. Ri o riso dos fujões ou dos traídos pela falta de reação ao assalto de um argumento. O riso é, sim, autoritário. Impõe com uma cara engraçada uma inocente piada, que de nada disso tem. Tem pavor, rancor, preconceito. Mas o riso tudo abafa. E aparece, ali, sorrateiro e inconveniente.  Senhor de sua presença. O riso é, sim, falta de assunto. Provocação e até irritação. Testa os nervos de quem vê em tudo um opositor. Testa também os nervos daquele professor. Que suporta, ou não, os risinhos quando tira os olhos do grupo. O riso, em suas variantes e sob todas as suas relatividades, é imprevisível. É um enigma. Porque nem todo riso é sincero. E quando falta a verdade, sobra aut...

Quarentena da varanda

Virgínia tinha 47 anos e observava a paisagem da varanda de seu apartamento. Fazia isso já há quase 40 dias. Estava em quarentena. Ela e um terço da população do planeta. Um vírus novo, altamente contagioso e letal colocou todos em casa. Ou pelo menos os que quiseram e puderam ficar. Ela tinha 47 e olhava a paisagem da varanda... Uma vida parada ou pulsante ? Engraçado ela comungar dos dois pontos de vista. A cidade estava aparentemente parada. Ouvia e via um carro aqui, outro ali cortar a avenida. Mas as pessoas estavam pulsantes. Cada uma com seus anjos e demônios internos e externos para lidar. Quarentena sozinho, quarentena com a família... Um desafio diário. Imagem: Joseph Redfield Nino / Pixabay Virgínia refletia sobre aquele desafio na vida dela. Não o tempo todo. Procurava dividir a rotina para ter uma rotina. Uma que fizesse sentido. Um novo pra o novo tempo. E um novo para um tempo mais novo ainda que estava por vir. Mas, entre os pensamentos, foi caçar algo na N...