Pular para o conteúdo principal

Magda, a ansiosa


leusa.santos@gmail.com


Magda estava decidida. Daquele dia não passava. Completara 40 anos há duas semanas, mas, de tão ansiosa, já estava na crise da meia-idade. Precisava fazer terapia. Já fazia acupuntura, aromaterapia, tomava florais, mas queria “Jung na veia”. Queria conhecer o seu "self", a sua consciência na totalidade, e não ficar apenas com o ego, a ponta do iceberg. Com certeza teria muito trabalho a fazer. E a necessidade estava cada vez maior porque, aos 40, não tinha casado e nem tido filhos. A vida profissional ia morna e a sentimental, cheia de atropelos e de carinhas que não queriam nada mais do que “curtir”. A conta emocional de Magda não estava fechando. Tinha que buscar ajuda. Ou melhor, mais ajuda.

Criou coragem e pegou o telefone:

- Consultório da Dra. Marta, bom dia!

- Bom dia! Gostaria de marcar uma consulta com a doutora Marta. Disse uma Magda ansiosa.

- Pois não... É a primeira vez?

- Com ela ou com terapia?

- [?] Tanto faz, senhora...

- Em tudo. Nunca fiz uma terapia. Estou com 40 anos e preciso urgentemente fazer as sessões. Não sei o que vai ser de mim nos próximos anos, da minha cabeça, dos descendentes que eu não tive, das promessas que não cumpri...

- Senhora? Interrompeu a secretária.

- O que foi?

- Temos vaga amanhã às quatro da tarde.

- Ótimo! Ótimo! Pode marcar! Pode marcar!

No outro dia:

- Doutora, eu nem sei por onde começar...

- O que lhe incomoda atualmente? Perguntou a psicóloga:

- O que pesa mesmo é o passado...

Uma semana depois:

- Doutora, eu vim hoje para lhe dizer que não quero mais continuar. Disse uma Magda aflita.

- Por quê? Perguntou a psicóloga.

- É muita coisa para dar conta! Eu não vou conseguir dialogar com os meus eus!

- Mas isso te incomoda?

- Claro!

- Por quê?

...
Dez anos depois:

- Nem sei como lhe agradecer, doutora Marta!

- Não precisa, fizemos um ótimo trabalho!

- Fizemos?

- Sim!

- E agora? O que eu vou fazer com os meus 50 anos? Não estou preparada para entender que provavelmente terei menos de 50 anos de vida!

- E isso te incomoda?

- Sim!

- Por quê?

...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No ritmo do mar

Os pensamentos guardam em si a mesma intermitência das ondas do mar. Ora voltam à calmaria, ora revoltam-se contra as pedras, ora nos quebram só para começarmos tudo de novo... E ainda bem que o mar é assim.

O riso

O riso é, sim, uma manifestação de alguém que está feliz. Mas é também desespero de alguém em aflição. Porque o riso tem essa característica de ser, em si, oposição. O riso é ainda um recurso de quem é pego de surpresa e, sem saber o que dizer, ri. Ri o riso dos fujões ou dos traídos pela falta de reação ao assalto de um argumento. O riso é, sim, autoritário. Impõe com uma cara engraçada uma inocente piada, que de nada disso tem. Tem pavor, rancor, preconceito. Mas o riso tudo abafa. E aparece, ali, sorrateiro e inconveniente.  Senhor de sua presença. O riso é, sim, falta de assunto. Provocação e até irritação. Testa os nervos de quem vê em tudo um opositor. Testa também os nervos daquele professor. Que suporta, ou não, os risinhos quando tira os olhos do grupo. O riso, em suas variantes e sob todas as suas relatividades, é imprevisível. É um enigma. Porque nem todo riso é sincero. E quando falta a verdade, sobra aut...

Quarentena da varanda

Virgínia tinha 47 anos e observava a paisagem da varanda de seu apartamento. Fazia isso já há quase 40 dias. Estava em quarentena. Ela e um terço da população do planeta. Um vírus novo, altamente contagioso e letal colocou todos em casa. Ou pelo menos os que quiseram e puderam ficar. Ela tinha 47 e olhava a paisagem da varanda... Uma vida parada ou pulsante ? Engraçado ela comungar dos dois pontos de vista. A cidade estava aparentemente parada. Ouvia e via um carro aqui, outro ali cortar a avenida. Mas as pessoas estavam pulsantes. Cada uma com seus anjos e demônios internos e externos para lidar. Quarentena sozinho, quarentena com a família... Um desafio diário. Imagem: Joseph Redfield Nino / Pixabay Virgínia refletia sobre aquele desafio na vida dela. Não o tempo todo. Procurava dividir a rotina para ter uma rotina. Uma que fizesse sentido. Um novo pra o novo tempo. E um novo para um tempo mais novo ainda que estava por vir. Mas, entre os pensamentos, foi caçar algo na N...