Pular para o conteúdo principal

Isadora, a intuitiva

Isadora acordou especialmente animada naquela manhã de segunda-feira. Antes mesmo de levantar da cama, inspecionou o celular para ver o horóscopo do dia. Leu as 

previsões para Touro e impressionou-se com a última frase. Repetiu-a várias vezes enquanto se arrumava para ir ao aeroporto. Tinha voo dentro de três horas:

- Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Aiiiiii! É 

hoje! É hoje! Acho que ele vai estar lá no avião! Vai estar lá no avião!!!!! Vai sim!!!

Isadora repetiu tanto isso que foi no táxi falando sozinha. Bem baixinho. Ela estava solteira havia três meses e desde então consultava horóscopo, leitura das mãos, 

inscreveu-se em sites de previsões on-line. Tudo para saber se estava prestes a ganhar um novo amor. Ansiosa.

A questão é que Isadora chegou ao aeroporto tarde demais. A porta do avião já havia fechado. Agitada, ela correu até o funcionário que operava a passarela de embarque:

- Moço, por favor! Dá tempo de passar? Coloca esse negócio junto da porta de novo, pelo amor de Deus!

- Desculpe. Não pode mais, o avião já está manobrando.

- Olha, o senhor pode não acreditar, mas o amor da minha vida está naquele avião!

- Seu namorado?

- Futuro namorado!

- Futuro?

- É! Vai ser. Ele não sabe ainda. Eu nem conheço, mas tenho certeza que o meu novo amor está naquela aeronave. Os astros me disseram!

O homem olhou desconfiado para Isadora e entendeu tudo. Tratava-se de uma desequilibrada, pensou ele. Sem acordo, Isadora saiu frustrada dali e foi para a praça de 

alimentação do aeroporto tomar um café e aliviar a cabeça confusa. 

- A senhorita vai pedir agora? – perguntou-lhe o garçom.

Isadora ficou parada olhando para aquele rapaz, alto, olhos castanhos, sorriso largo...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No ritmo do mar

Os pensamentos guardam em si a mesma intermitência das ondas do mar. Ora voltam à calmaria, ora revoltam-se contra as pedras, ora nos quebram só para começarmos tudo de novo... E ainda bem que o mar é assim.

O riso

O riso é, sim, uma manifestação de alguém que está feliz. Mas é também desespero de alguém em aflição. Porque o riso tem essa característica de ser, em si, oposição. O riso é ainda um recurso de quem é pego de surpresa e, sem saber o que dizer, ri. Ri o riso dos fujões ou dos traídos pela falta de reação ao assalto de um argumento. O riso é, sim, autoritário. Impõe com uma cara engraçada uma inocente piada, que de nada disso tem. Tem pavor, rancor, preconceito. Mas o riso tudo abafa. E aparece, ali, sorrateiro e inconveniente.  Senhor de sua presença. O riso é, sim, falta de assunto. Provocação e até irritação. Testa os nervos de quem vê em tudo um opositor. Testa também os nervos daquele professor. Que suporta, ou não, os risinhos quando tira os olhos do grupo. O riso, em suas variantes e sob todas as suas relatividades, é imprevisível. É um enigma. Porque nem todo riso é sincero. E quando falta a verdade, sobra aut...

Quarentena da varanda

Virgínia tinha 47 anos e observava a paisagem da varanda de seu apartamento. Fazia isso já há quase 40 dias. Estava em quarentena. Ela e um terço da população do planeta. Um vírus novo, altamente contagioso e letal colocou todos em casa. Ou pelo menos os que quiseram e puderam ficar. Ela tinha 47 e olhava a paisagem da varanda... Uma vida parada ou pulsante ? Engraçado ela comungar dos dois pontos de vista. A cidade estava aparentemente parada. Ouvia e via um carro aqui, outro ali cortar a avenida. Mas as pessoas estavam pulsantes. Cada uma com seus anjos e demônios internos e externos para lidar. Quarentena sozinho, quarentena com a família... Um desafio diário. Imagem: Joseph Redfield Nino / Pixabay Virgínia refletia sobre aquele desafio na vida dela. Não o tempo todo. Procurava dividir a rotina para ter uma rotina. Uma que fizesse sentido. Um novo pra o novo tempo. E um novo para um tempo mais novo ainda que estava por vir. Mas, entre os pensamentos, foi caçar algo na N...