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Jandira e a geladeira

Há mais de duas horas Jandira tentava sair de casa para o trabalho. Pegava às 8h em pontos, mas já eram dez e quarenta da manhã e auxiliar de escritório só conseguiu ir até o ponto de ônibus e voltar. Não podia sair de casa. Não com a geladeira ligada. Jandira estava com um pensamento fixo de que se saísse de casa e deixasse a geladeira sozinha, tudo ia pegar fogo. ‘Como ia ser? O prédio todo pode pegar fogo se der um curto-circuito’, pensava ela, repetidamente. 

Jandira sempre teve manias, mas nunca havia chegado a esse ponto de não ir trabalhar por causa de alguma delas. Essa da geladeira apareceu depois do apagão. Ela estava no trabalho e na hora só pensava que a geladeira poderia entrar em curto se a energia voltasse. Não adiantaram os argumentos dos colegas de que o disjuntor não deixa isso acontecer. Jandira foi embora para casa antes mesmo da empresa liberar os funcionários para casa. Precisava ver se estava tudo bem com a geladeira. 

Esse fraco para energia elétrica, ou melhor, para os perigos da energia elétrica sempre povoou a mente de Jandira. Antes de sair de casa, ela sempre despluga todas as tomadas. Mas não pode fazer isso com a geladeira. Iria perder tudo. E estava ali, já quase onze da manhã e não conseguia sair para o trabalho. Ligou, inventou uma desculpa, mas não foi trabalhar. Passou o dia procurando uma solução.

Debruçou-se na internet. Procurando histórias de quem é parecido com ela. Leu sobre várias manias, mas parou porque se sentiu atraída pelas manias dos outros. E não precisava de mais manias. E, sim, de resolver a sua mania. Até que entrou em um site estranho, que falava sobre a vida primitiva. Como o ser humano vivia antes da energia elétrica. Passou a noite lendo sobre isso. Estava salva!

E no outro dia estava Jandira no trabalho. Pontualmente às 8h, tendo ao seu lado um cooler com gelo e os alimentos que estavam congelados. E a geladeira estava em casa. Desligadinha da Silva!

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