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O LABIRINTO

Ao olhar para mim você vê o quê? Alguns veem um desafio a vencer. Outros veem um grande obstáculo e desistem de tentar. O difícil cansa. O difícil instiga. Depende do que sopra a alma. Diz a mitologia grega que Dédalo me construiu para aprisionar o minotauro. Uma figura estranha metade homem e metade touro. Jovens eram ofertados regularmente para a criatura, que os devorava. Até que Teseu acabou com essa farra antropofágica e, com uma ajudazinha de Ariadne, conseguiu derrotar o minotauro e sair de mim, vivo. Vejam que perspicácia, não é? Tantos anos e tantos jovens foram mortos pela horrível criatura miscigenada de humano e animal e bastou uma ideia básica: um novelo. Um simples novelo que Teseu foi desenrolando para marcar o caminho de volta. Bingo! Bingo nada! Não acredito nessa história. E olhe que eu tenho moral para afirmar isso. Não tem nada de Dédalo, de Ariadne, de Teseu e muito menos do minotauro. O minotauro é você! Seu vizinho, seu chefe, sua namorada, seu amigo, enfim, qua...

O ESPELHO

O espelho estava ali há uma semana, desde a mudança. Ainda não tinha sido fixado na parede. Estava encostado na parede do corredor, que faz comunicação com o quarto de casal. Encostado e inclinado. 'Será que espelho empena se ficar muito tempo inclinado?', pensava Jorge. Infelizmente ele chegava à conclusão que iria ter todo o tempo do mundo para descobrir isso. Uma porque havia acabado de se mudar e não cogitaria ter toda aquela trabalheira em apenas uma semana de casa nova. E outra porque não tinha forças nem mentais, nem emocionais e nem físicas para pregar aquele espelho na parede. Aquele espelho e um bocado de coisas pra fazer. Coisas de mudança. Todos os dias da rotina de Jorge eram os mesmos. Saía cedo para o trabalho. 'Ainda bem que tenho o trabalho para ir!', aliviava-se quando não mais suportava a solidão dentro daquele apartamento. O café da manhã era tomado numa cadeira de praia, em frente à TV, que por sua vez era apoiada em cima de dois caixas de som vel...

CORES DA VIDA

PRETO Uma mulher elegante, séria, discreta, sóbria. Um menino triste. Órfão de pai e mãe. Um mendigo na beira da estrada, sob sol escaldante. Um momento de suspense, que antecede uma grande tragédia. BRANCO Uma pomba voando, testemunhando cenas de guerra. Queda d'água de cachoeira no meio da mata. Correr por um imenso algodoeiro. Amanhecer na catedral de Notre Dame de Paris. CINZA Frio na barriga quando se está preso num engarrafamento. Acordar e não ter vontade de se levantar da cama. Alcançar uma promoção e se contentar com ela para sempre. O primeiro dia do ano. VERMELHO Quando o homem olha a sua futura esposa entrar na igreja. Quando o homem olha a sua secretária abrir-lhe um sorriso. Quando a mulher vê o seu marido chorando com o nascimento do bebê. Quando a mulher vê que um antigo namorado está mais conservado do que o marido. VERDE Entrar numa banheira de hidromassagem em meio a sais com fragância de jasm...

INSÔNIA

Diz o ditado popular que na horizontal tudo é mais fácil. Mas se esquecem que essa é a posição preferida Dela. Aliás, é só na horizontal que Ela chega. Bem antes do sono, afoita, ousada, chega chegando. Ocupando os espaços vazios sem medo da rejeição, tão peculiar nas pessoas que A carregam. E Ela é carregada não como um peso, mas como um fardo mesmo, um estorvo. Maldita! Maldita mil vezes! Uma vez um homem esbravejou na frente do médico, que lhe dava a penosa notícia da sua inexorável impotência sexual. O homem amaldiçoou a impotência. Mas, não sabia ele que, após essa triste constatação, teria que conviver com uma companheira mais lacerante: Ela. Inteira, disposta a atravessar com ele noites inteiras também. E atravessar noites é sua especialidade. Atravessa as madrugadas reinando absoluta! Sendo odiada, rejeitada, negada e lamentada. Não se importa. Não se importa porque é através da agonia dos outros que ela se mantém de pé, viva, na horizontal. Engraçado como a vida é. Tantos pro...

INSATISFAÇÕES

Tudo o que José queria era casar, ter um casal de filhos, ter um bom emprego e morar num bairro onde o supermercado fosse perto de casa. Conseguiu, mas Maria é estéril. Tudo o que Maria queria era casar, morar numa casa grande, fazer academia todo dia e sempre jantar fora às sextas-feiras. Conseguiu, mas José não lava as próprias cuecas. Tudo o que José queria era jogar futebol aos domingos com os amigos, tomar chopp gelado, jogar sinuca durante a semana no intervalo do almoço e sempre tirar os trinta dias de férias. Conseguiu, mas Maria fala demais no seu pé de ouvido. Tudo o que Maria queria era ser elogiada pelo marido quando mudasse o visual, assistir a um filme legal no cinema nas noites de sábado, comer caranguejo e tomar caldinho de feijão (com bastante pimenta) na praia aos domingos. Conseguiu, mas José ronca muito. Tudo o que José queria era viajar sem destino em todo feriadão, brincar os quatro dias de carnaval, receber de presente uma grade de cerveja no aniversário...

TUDO É CARNAVAL!

No começo, tudo é Carnaval! O que o outro diz é como um samba-enredo, que combina direitinho com a nossa escola. O sentimento obedece ao ritmo da bateria. A razão sempre fica em segundo plano, no rabo da agremiação. É sempre assim o início de um relacionamento. Tudo tem o tempero das mulatas, a leveza da porta-bandeira, a delicadeza do mestre-sala. É nota dez, até que um se acostuma com o outro. Até que se enxerguem os defeitos, as falhas nas alas. Aí entram os nossos jurados internos. Começamos a julgar o outro, a analisá-lo, a compará-lo com desfiles passados. Fulano não tinha isso. Não gosto disso que ele faz, ela é muito chata para tal coisa, e assim vamos desenrolando vários quesitos e tirando pontos, tirando, tirando... Sobra o quê? A realidade. Que está na outra ponta da avenida, na dispersão. Sem alegorias, sem plumas e paetês, sem máscaras, nos resta a massa real. Aquela que sempre esteve ali, mas antes era ofuscada pela eclosão contagiante de sentimentos da nossa escola de ...

CADÊ MARGARIDA?

Antônio já não sabia mais onde procurar a esposa. Em casa, os lugares mais limpos: cozinha, sala, sala-de-estar, quartos, banheiros, varanda. Ufa! O guarda-roupa, as gavetas, o armário da cozinha, o armário da área de serviço, todos, tiveram suas portas abertas e fechadas o equivalente a pelo menos um mês de uso normal. 'Onde diabos está Margarida?', perguntava-se ele, mentalmente. Margarida, esposa de Antônio, havia saído de casa pela manhã, para o supermercado. Só que já eram dez da noite e nada de ela voltar. O celular? Desligado. O telefone de casa? Nem um recado na secretária eletrônica. Era um sábado e Antônio estava desesperado. Telefonou para a mãe e contou o que estava acontecendo: - Meu filho! Você já procurou a polícia? - Não, mãe... - Mas tem que procurar, filho! Olha, estou indo pra aí para a gente ir na delegacia, nos hospitais, no IML... - Não é possível, mãe! Será que aconteceu algo de errado? Imediatamente a mãe de Antônio, dona Otaviana, tomou um táx...