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A brevidade da vida

Quando grandes tragédias acontecem, ou mesmo quando perdemos uma pessoa querida no seio da nossa família, assaltam a nossa mente os pensamentos clichês “não somos nada”, “não sabemos de nada”, “a vida é breve”. Fazendo uma reflexão sobre essa brevidade da vida e do que fazemos dela, chego a uma opinião, bem pessoal, que a vida não é breve, nós é que somos breves. Somos breves quando perdemos o tempo precioso que temos aqui nesta vida, não importando se acreditamos ou não numa vida vindoura, em reencarnação, ressurreição, ou o que for. E geralmente os escorregões morais são os fatores que mais nos roubam o breve tempo que temos, ou melhor, que o tornam inútil. Somos breves quando nos comprazemos da desgraça dos outros, somos breves quando tentamos minar o caminho de quem pensamos ser o adversário, somos breves quando procuramos matar no outro a vontade de andar de cabeça erguida.  Mas também há os pequenos escorregões, nem tão graves assim, que dão brevidade ao nosso tempo....

Pronominais e a morte

Certo dia, estavam as três irmãs – Próclise, Mesóclise e Ênclise – reunidas na sala, tomando chá com bolachas integrais. As três não casaram e ficaram com a ingrata missão de vigiar a colocação pronominal da gramática da língua portuguesa. Mas eis que chega uma visita indesejada, a Morte, que adentrou na casa delas: - Oi, meninas! Cheguei! – Anunciou a Morte, efusivamente. - Que susto! Quer matar a gente do coração? – Reclamou Próclise, que sempre faz questão de falar tudo primeiro. - A ideia é justamente essa! – Riu a Morte. - Mas o que você está fazendo aqui? – Perguntou Ênclise. - Levar uma de vocês. Chegou a hora! - O quê?  Como assim? – Assustou-se Mesóclise. - Isso mesmo que vocês escutaram. Pensaram o quê? Que iam ser eternas? - Mas nós vigiamos a gramática! – Reclamou Próclise. - A gramática não precisa mais de vocês. As regras já estão nos livros e os professores ensinam. Portanto, não tem jeito. Vim escolher quem vai primeiro. Para vocês não dize...

O lado psicológico do boato

O boato, vocês sabem Quando se espalha por inteiro Deixa todos em alerta Desperta o lado fofoqueiro Ninguém consegue se segurar E logo trata de repassar O que nem mesmo sabe Se vai se confirmar Na verdade isso tem Um fundo psicológico Quando sabemos de algo Que foge do mundo lógico Acentua a nossa vontade De descobrir que o boato Na realidade é uma verdade Quem defende essa tese É um psiquiatra famoso Carl Jung é o nome dele Muito perspicaz e boa gente O cara entende de tudo Que diz respeito ao inconsciente Ele fez um trabalho Numa universidade A partir de um fato real Ocorrido com um professor Que por pouco não se deu mal Uma aluna disse à outra Que teve um sonho de amor Contou que estava numa granja No mesmo quarto do professor Continuando a narração A jovem e sonhadora donzela Disse que o professor Foi carinhoso com ela Os dois dormiram juntos Numa noite inesquecível E quando o dia raiou O s...

Inquietações de uma dondoca

Crianças não perdoam quando fazem perguntas. Mesmo sem querer, deixam sem palavras aqueles que são alvos de suas indagações. A dona “Branca não sei das quantas” – cujos sobrenomes são tão compridos que tomariam muito espaço citar nesta  coluna  – foi uma vítima das perguntas cravadas do seu filho, Gabriel, seis anos de idade: - Mamãe, o que é uma dondoca? - Branca tomou um choque. Parou imediatamente de assistir à reprise do casamento real e tentou ganhar tempo com outra pergunta: - Mas por que você está me perguntando isso, filho? - Por que lá no colégio disseram que a senhora é uma dondoca. - O quê? Mas isso é bullying!! Que absurdo! Vou falar com a diretora e... - E o que é isso de bulli.. o quê mesmo? - Deixa pra lá filho, depois eu te explico. - Mas e então, mamãe? - Então o quê, Gabriel? - A senhora e ou não é uma dondoca? Agora Branca não tinha mais saída. Além de ter que achar uma resposta para si mesma, teria que satisfazer, pelo menos ...

Aos leitores

Não há redundância maior do que estar escrito em um jornal ou revista, ou qualquer comunicação pública, a frase “Aos leitores”, como esta que vai ao título desta coluna. Quando eu comecei a pensar em como escrever o que eu tenho para dizer entendi a necessidade de frisar que esta coluna é dirigida aos leitores. É uma forma de dizer que vai ser escrito algo diferente, algo que é preciso prestar mais atenção do que de costume. Pois bem, por isso recorri a este espaço inteiro para dar meu recado e não simplesmente dispor de uma frase pequenina no pé da página ou desta coluna. Às vezes é preciso parar para avançar. E a coluna Pulando a Cerca - que já se chamou Folha Policial e Romance Policial durante estes 14 anos – vai mudar novamente. Cometi a tola presunção de achar que poderia modificá-la ainda publicando esta que lhes dá bom dia aos domingos. Enganei-me. Na verdade, para gestar um novo filhote é preciso que o invólucro esteja disponível. Em suma, preciso pensar apenas na ...

Chapeuzinho Vermelho

Todo mundo conhece A história daquela garota Ingênua e delicada E falada de boca em boca A jovem de quem eu falo Está no imaginário popular É comentada de pais para filhos Conhecida em todo santo lar Estou falando da Chapeuzinho Aquela que ia visitar a vovozinha E foi abordada por um lobo Quando andava na floresta sozinha Mas Chapeuzinho cresceu E sua alma de mulher floresceu Virou uma adulta bem sabidinha Tudo ensinado pela vovozinha O seu primeiro amor de verdade Foi um rapaz de outra cidade Que numa festa ela encontrou Jogou charme e logo o fisgou O rapaz tinha muitas posses Mas o coitado era feinho que só Encontrou em Chapeuzinho A chance de sair do caritó O casamento saiu logo Mas o rapaz marcou bobeira Fez com comunhão de bens E ainda caiu na besteira De deixar Chapeuzinho Guiar sua vida financeira Não deu outra diferente O rapaz boa gente Amargou a falência E apelou para o banco Pedindo clem...

Meus pêsames

Neste momento difícil, a gente não tem palavras para dizer. Fica difícil achar aquelas que poderiam aliviar o sofrimento, mas eu lhe digo, sinceramente, que o tempo tudo cura. E quando digo fico aliviada porque o difícil dos pêsames é começar a falar com o coitado que se desmancha em lágrimas. Você pensa que aquele momento vai durar uma eternidade. Mas, além do tempo, é preciso ter paciência para ver os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos passarem. Porque nada pior do que o tempo que se arrasta e parece que se esqueceu da gente. Mas, não é só o tempo que vai se esquecer de você por um bom tempo. Os amigos também. Exceto aqueles sinceros amigos, que se conta com apenas um dedo. Os outros, que estão mais para pseudo , vão sumir. Na verdade eles não somem, desaparecem. E fazem isso porque você é quem some da vida por um tempo. Tempo longo demais para quem gosta de tomar cachaça no final de semana e não tem saco para escutar lamúria de algum desafortunado que perdeu um e...