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Uma DR no restaurante

O Café Colombo estava cheio naquela noite de sexta. Rubem, Suzana e a filha deles, Lili, esperaram uns trinta minutos para conseguir uma mesa. Ao se acomodarem e fazerem o pedido, Lili, quatro anos, já mostrou quem dominaria o jantar: - Papai, por que você e mamãe não se separam? Rubem ficou surpreso, mas, acostumado com as perguntas intempestivas da filha, sorriu levemente e respondeu: - Mas por que teríamos de nos separar? Está tudo bem, filhota! - Por que os pais dos meus colegas na classe são separados. Só os meus que não são. Suzana, que arrumava as coisas em uma cadeira, interessou-se em puxar a conversa: - Filhinha, e você gostaria que papai e mamãe se separassem? -... - É, Lili! Você gostaria? Diz pra gente. - Na verdade, não sei. Suzana puxou mais: -  Mas se a mamãe e papai fossem separados você seria feliz? - Humm... Pelo menos teria assunto pra conversar com meus colegas. - E o que seus colegas falam dos pais deles? – Rubem já estava interessando-se pela conversa. - Ah! ...

A incompletude do pensamento

O pensamento que sobe as escadas e não completa os degraus. O ensaio de dizer algo que não deveria ser dito. O desejo de conhecer algo tão parecido e ao mesmo tempo tão desconhecido. A teimosia em isolar o que parece ser como a água, que insistentemente contorna o caminho, adaptando-se aos obstáculos. Uma porta que está prestes a se abrir. Um vai-e-volta de decisões tão certas, que perdem a validade. Isso ou aquilo. Aqui ou lá. Agora ou nunca. Ou talvez. Será?

Para sempre

O para sempre existe. E existe para sempre. Mas há quem não acredite na longevidade do para sempre. Para esses, o para sempre dura até que algo atravesse o seu caminho e quebre a continuidade, findando-o. Esse raciocínio pode ser relacionado ao casamento, por exemplo. “Até que a morte os separe” já é uma quebra do para sempre. Será? Mas o para sempre não é apenas associado ao tempo. Há também o para sempre da intensidade. Feito amor de mãe, como diz Drummond, “é tempo sem hora, luz que não apaga”. E quando a mãe vai embora? Deus chama e Drummond diz que se pudesse baixaria um decreto para que ela aqui ficasse. Para sempre. Mas será que mãe deixa de ser mãe no outro plano? Ou é mãe para sempre? O para sempre também pode ser ligado a um estado de espírito. De alma. Quem é, por essência, leve, traz consigo essa mansuetude de forma infinita no ser. É um estado que dura para sempre, porque não tem vacilos. Não permite interrupções. Pode até ser abalado, mas não se quebra. Atravessa...

Salada de frutas

Pega a fruta. Parte. Descasca. Corta em pedacinhos. “Acho que não dá mais. Ele nem fala mais em aniversário de casamento. Nem viajamos mais, Nada de diferente!” Outra fruta. Parte. Descasca. Corta em pedacinhos. “Mas também tem a questão do trabalho. Minha profissão me permite resolver as coisas em casa. Ele não. Tem o estresse do dia a dia, cobrança, concorrência. A rotina influencia.” Mais uma fruta. Desta vez o abacaxi. Mais difícil de descascar. Foi-se a casca. Agora fica melhor. “Mas especialistas em relacionamentos dizem que uma relação é como uma planta. Tem que sempre estar regando.” As bananas por último. Tira a casca. “Será que estou sendo exigente?” Parte em pedacinhos. “O relacionamento devia ser assim. Feito uma salada de frutas. Muitos itens diferentes que se harmonizam juntos.” Parte mais pedacinhos de manga para garantir o sabor doce da salada. “Mas esses itens precisam estar cada um no...

Jandira e a geladeira

Há mais de duas horas Jandira tentava sair de casa para o trabalho. Pegava às 8h em pontos, mas já eram dez e quarenta da manhã e auxiliar de escritório só conseguiu ir até o ponto de ônibus e voltar. Não podia sair de casa. Não com a geladeira ligada. Jandira estava com um pensamento fixo de que se saísse de casa e deixasse a geladeira sozinha, tudo ia pegar fogo. ‘Como ia ser? O prédio todo pode pegar fogo se der um curto-circuito’, pensava ela, repetidamente.  Jandira sempre teve manias, mas nunca havia chegado a esse ponto de não ir trabalhar por causa de alguma delas. Essa da geladeira apareceu depois do apagão. Ela estava no trabalho e na hora só pensava que a geladeira poderia entrar em curto se a energia voltasse. Não adiantaram os argumentos dos colegas de que o disjuntor não deixa isso acontecer. Jandira foi embora para casa antes mesmo da empresa liberar os funcionários para casa. Precisava ver se estava tudo bem com a geladeira.  Esse fraco para energia elétrica, o...

Vai pra Rússia?

- Vai pra Rússia? - Vou sim! Claro! - Claro por quê? - Óbvio que eu vou pra Rússia! Todos vão pra Rússia. - Menos ele. - Ele quem? - Você sabe quem. Ele. Aquele bem birrento. Rico! - Não sei de quem você está falando. - Ah! Sabe sim! Só tem um birrento rico que eu conheço e ele não vai pra Rússia. - Eu não teria tanta certeza... - Então você sabe. - Sei do quê? - De quem eu estou falando... - Não sei de pedra firme não. Só suspeito... - Quem suspeita sabe. - Não. Não é assim tão simples. - É, ora bolas! Onde há fumaça há fogo. Nunca ouviu falar? - Não quero me comprometer. - Ah, vai! Estamos falando da mesma pessoa! - Eu não tenho tanta certeza, já disse. - Vai dizer que você não pensou naquele que passa na televisão? - Muitos passam na televisão. - Olha aí, agora! Está passando! É ele, não é? Quem você está pensando? - De jeito nenhum! - Isso é blefe! É ele sim! - Não é! - É! - Não! - Ok! Ok! Ok! Vamos parar agora hein, senho...

Drummond

Drummond vinha andando na rua meio desconfiado. Mãos nos bolsos. Voltava da escola. Mochila nas costas. O tio a observá-lo sentado no batente do terraço de casa. O tio implicava com ele. Na verdade, é um tio meio irmão, meio primo. Pouca diferença de idade. Drummond tem dez anos. O tio, 16. Dessas famílias que começam cedo a desligar a televisão! Ao chegar em casa, no batente do terraço, o tio já o importuna: - Que cara é essa, Dru? - A mesma de sempre. - Nada disso! Aprontasse algo, não foi? Tá estranho. - Estranho nada. - E essas mãos nos bolsos? O que tem aí? - Aqui... nada. - Tem sim alguma coisa! Tira pra eu ver. - Para! Tanto o tio fez e, na verdade, como tinha natural supremacia física, revistou o sobrinho, conseguindo tirar do seu bolso esquerdo um bilhete. - Ah! Achei o seu mistério! - Devolve isso! Não é seu! - E é de quem? O que você esconde? - Perguntou o tio, segurando o papel como se fosse um troféu, ainda sem abri-lo. - ...