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Salada de frutas

Pega a fruta. Parte. Descasca. Corta em pedacinhos. “Acho que não dá mais. Ele nem fala mais em aniversário de casamento. Nem viajamos mais, Nada de diferente!” Outra fruta. Parte. Descasca. Corta em pedacinhos. “Mas também tem a questão do trabalho. Minha profissão me permite resolver as coisas em casa. Ele não. Tem o estresse do dia a dia, cobrança, concorrência. A rotina influencia.” Mais uma fruta. Desta vez o abacaxi. Mais difícil de descascar. Foi-se a casca. Agora fica melhor. “Mas especialistas em relacionamentos dizem que uma relação é como uma planta. Tem que sempre estar regando.” As bananas por último. Tira a casca. “Será que estou sendo exigente?” Parte em pedacinhos. “O relacionamento devia ser assim. Feito uma salada de frutas. Muitos itens diferentes que se harmonizam juntos.” Parte mais pedacinhos de manga para garantir o sabor doce da salada. “Mas esses itens precisam estar cada um no...

Jandira e a geladeira

Há mais de duas horas Jandira tentava sair de casa para o trabalho. Pegava às 8h em pontos, mas já eram dez e quarenta da manhã e auxiliar de escritório só conseguiu ir até o ponto de ônibus e voltar. Não podia sair de casa. Não com a geladeira ligada. Jandira estava com um pensamento fixo de que se saísse de casa e deixasse a geladeira sozinha, tudo ia pegar fogo. ‘Como ia ser? O prédio todo pode pegar fogo se der um curto-circuito’, pensava ela, repetidamente.  Jandira sempre teve manias, mas nunca havia chegado a esse ponto de não ir trabalhar por causa de alguma delas. Essa da geladeira apareceu depois do apagão. Ela estava no trabalho e na hora só pensava que a geladeira poderia entrar em curto se a energia voltasse. Não adiantaram os argumentos dos colegas de que o disjuntor não deixa isso acontecer. Jandira foi embora para casa antes mesmo da empresa liberar os funcionários para casa. Precisava ver se estava tudo bem com a geladeira.  Esse fraco para energia elétrica, o...

Vai pra Rússia?

- Vai pra Rússia? - Vou sim! Claro! - Claro por quê? - Óbvio que eu vou pra Rússia! Todos vão pra Rússia. - Menos ele. - Ele quem? - Você sabe quem. Ele. Aquele bem birrento. Rico! - Não sei de quem você está falando. - Ah! Sabe sim! Só tem um birrento rico que eu conheço e ele não vai pra Rússia. - Eu não teria tanta certeza... - Então você sabe. - Sei do quê? - De quem eu estou falando... - Não sei de pedra firme não. Só suspeito... - Quem suspeita sabe. - Não. Não é assim tão simples. - É, ora bolas! Onde há fumaça há fogo. Nunca ouviu falar? - Não quero me comprometer. - Ah, vai! Estamos falando da mesma pessoa! - Eu não tenho tanta certeza, já disse. - Vai dizer que você não pensou naquele que passa na televisão? - Muitos passam na televisão. - Olha aí, agora! Está passando! É ele, não é? Quem você está pensando? - De jeito nenhum! - Isso é blefe! É ele sim! - Não é! - É! - Não! - Ok! Ok! Ok! Vamos parar agora hein, senho...

Drummond

Drummond vinha andando na rua meio desconfiado. Mãos nos bolsos. Voltava da escola. Mochila nas costas. O tio a observá-lo sentado no batente do terraço de casa. O tio implicava com ele. Na verdade, é um tio meio irmão, meio primo. Pouca diferença de idade. Drummond tem dez anos. O tio, 16. Dessas famílias que começam cedo a desligar a televisão! Ao chegar em casa, no batente do terraço, o tio já o importuna: - Que cara é essa, Dru? - A mesma de sempre. - Nada disso! Aprontasse algo, não foi? Tá estranho. - Estranho nada. - E essas mãos nos bolsos? O que tem aí? - Aqui... nada. - Tem sim alguma coisa! Tira pra eu ver. - Para! Tanto o tio fez e, na verdade, como tinha natural supremacia física, revistou o sobrinho, conseguindo tirar do seu bolso esquerdo um bilhete. - Ah! Achei o seu mistério! - Devolve isso! Não é seu! - E é de quem? O que você esconde? - Perguntou o tio, segurando o papel como se fosse um troféu, ainda sem abri-lo. - ...

Mínimos

NÃO VER PARA CRER - As fotos mostravam tudo. Ele ficou louco, procurando identificar erros de montagem.  SERÁ? - Pijamas, cadeira de balanço, leite morno. O sonho de todo aspirante a milionário.  CONVIVÊNCIA – A liga não ligava mais. Percebiam, mas fingiam não se importar. Velhos estranhos. A INDIFERENÇA - Jantavam ravióli e vinho. Engoliam em seco o silêncio.  SEPARAÇÃO - Assinaram o divórcio. A rotina virou saudade.  BLOQUEIO - João não conseguia cantar. Na sessão de terapia, chorou quando a psicóloga perguntou-lhe sobre a última vez que cantou. Só lembrava de uma voz que dizia: ‘cale-se’. Tinha cinco anos. TOMATES VERDES - Mãe, por que não podemos comer tomates verdes? - Pergunta besta! Porque são verdes, menino! - E por que são verdes? - Porque não estão maduros ainda. - Então eu posso brincar com eles, né?

Isadora, a intuitiva

Isadora acordou especialmente animada naquela manhã de segunda-feira. Antes mesmo de levantar da cama, inspecionou o celular para ver o horóscopo do dia. Leu as  previsões para Touro e impressionou-se com a última frase. Repetiu-a várias vezes enquanto se arrumava para ir ao aeroporto. Tinha voo dentro de três horas: - Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Sua necessidade de ação está em alta! Aiiiiii! É  hoje! É hoje! Acho que ele vai estar lá no avião! Vai estar lá no avião!!!!! Vai sim!!! Isadora repetiu tanto isso que foi no táxi falando sozinha. Bem baixinho. Ela estava solteira havia três meses e desde então consultava horóscopo, leitura das mãos,  inscreveu-se em sites de previsões on-line. Tudo para saber se estava prestes a ganhar um novo amor. Ansiosa. A questão é que Isadora chegou ao aeroporto tarde demais. A porta do avião já havia fechado. Agitada, ela correu até o funcionário que op...

A incômoda

O professor Marivaldo estava especialmente inspirado naquela tarde. Finalmente havia resolvido escrever o livro sobre a vida íntima dos pássaros. Largou mais cedo da faculdade e durante a caminhada de volta para casa passou pela confeitaria. Estava lotada. ‘Seria razoável tomar um café e rabiscar algumas ideias para o livro’, pensou ele. Entrou na confeitaria. Pediu um lugar o mais isolado possível, um canto de parede. Teve sorte. Esperou só dez minutos até que vagou uma mesa. Era conjugada com outra, de duas cadeiras, mas tudo bem.  Pediu um café e alguns pães de queijo. Pegou o bloquinho de anotações, posicionou os óculos de leitura e aguardou a inspiração. Eis que justo nesse momento uma mulher bastante elegante, óculos escuros na cabeça, de bolsa e sapatos amarelos aparece na sua frente com duas crianças, de uns sete, oito anos: - Olá, senhor! Tem alguém nessa mesa ao seu lado? - Não. - Obrigada! Rapidamente, a mulher sentou-se com as crianças e foi logo dando “a real” do que s...