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No avião



Pense num troço ruim
Que é viajar de avião
Quando aquele bicho grande
Levanta voo eu levanto a mão
E peço pra Deus do céu
Tomar conta da situação
Porque nesse piloto
Ninguém confia não

Certa vez numa viagem
Que fiz pra o Rio de Janeiro
Tomei calmante e chá
Pra quando naquele negócio entrar
Já de olho meio vesgueiro
Pegar logo no sono
E desligar o voo inteiro


Mas não é que o efeito
Que deu foi errado
Em vez de dormir, vejam só
Eu fiquei foi acordado
Escutando até o ronco
De quem de longe de mim estava
Imagine do meu lado
Que era perto da asa?


Sentou-se junto uma mulher
Pra meu azar completar
Que falava pelos cotovelos
Nem parecia respirar
E o pior é que ela dizia
Ai meu Deus, Virgem Maria!
Guarde a minha alma no céu
Caso esse negócio enguice
E eu morra só na agonia


Eu já estava era nervoso
Com aquela falação
E quando o piloto anunciou
Piorou muito a situação
Ele disse que ia passar
Por uma área de turbulência
E o meu coração passou
A aumentar a frequência


A mulher se pegou comigo
Apertou a minha mão
Disse que se escapasse dessa
Nunca mais ia trair não
O marido, um homem santo
Que tinha ficado em casa
E nem sabia, coitado
Que a viuvez se aproximava


Até que finalmente
Passou o aperreio
A turbulência terminou
E o piloto nem pisou no freio
E a mulher olhou pra mim
Com a cara mais lavada
E disse: olha, moço
Finja que não ouviu nada


Eu olhei bem pra ela
E disse, mentalmente,
Que mulher sem-vergonha
E o marido é um demente
Deixa a outra viajar
Pro Rio de Janeiro a vadiar
E nem desconfia
De sua cabeça a se enfeitar


E a danada parece
Que leu a minha mente
Olhou pra mim bem cínica
Fez uma proposta indecente
Pra quando chegar no Rio
Pra um barzinho fosse a gente
Bater um papo, tomar chopp
Enquanto ela esperava
A ligação do insolente


Como eu estava só
Resolvi aceitar
O estranho convite dela
E também pra aproveitar
Que ela pagaria tudo
O jantar e o chopp
Enquanto esperava
O amante telefonar


E lá no restaurante
No maior bate-papo
O telefone dela toca
E ela atendeu no ato
Mas não era o amante
E sim uma amiga
Que de tão alto falar
Tive foi frio na barriga


A voz da amiga era igualzinha
À da minha santa esposa
Perguntei qual o nome dela
E a mulher disse: Gabriela
Quase engasguei com o chopp
Seria a minha gazela?


Rapidamente decidi
Aquele encontro encerrar
Nem detalhe quis mais saber
Dessa amiga do celular
Preferi fugir dali
E no hotel ao chegar
Liguei logo pra minha Gabi
Oi amor, onde você está?

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